Superdotação: talentos especiais, desafios únicos e a busca por uma educação inclusiva

No Brasil, estima-se que 2,3 milhões de estudantes superdotados lutem por educação de qualidade

[Superdotação: talentos especiais, desafios únicos e a busca por uma educação inclusiva]

FOTO: Freepik

Pensamento rápido, apurado e acima da média, amplo vocabulário, talento para resolver cálculos matemáticos, criatividade extraordinária, raciocínio avançado e alta sensibilidade. Essas são algumas das características das crianças superdotadas que, apesar das incríveis aptidões para atividades intelectuais, artísticas ou esportivas, também enfrentam inúmeros desafios, principalmente dentro do ambiente escolar.

No Brasil, de acordo com o último Censo Escolar, divulgado em 2022, há cerca de 27 mil estudantes com perfil de altas habilidades/superdotação matriculados na educação especial, mas o número real pode ser ainda maior. Por outro lado, especialistas sugerem que as instituições educacionais estão longe do patamar ideal quando o assunto é o acolhimento e inclusão dessas crianças e adolescentes.

Neste Dia das Crianças, separamos algumas dessas histórias incríveis de jovens brasileiros com altas habilidades e ouvimos especialistas no assunto que destacam a importância de um sistema educacional mais inclusivo e adaptado às necessidades das crianças superdotadas.

Cenário mundial 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que 5% da população mundial têm algum tipo de alta habilidade ou superdotação. Se considerados os mais de 47 milhões de alunos da educação básica (Censo Escolar, Inep 2020), cerca de 2,3 milhões de estudantes devem compor este grupo, de acordo com o Ministério da Educação (MEC).

No entanto, este é um número que ainda está muito longe de ser exato, já que o índice de identificação desse segmento ainda é baixo no Brasil. “Esse é o principal desafio para a área na Educação Especial: identificar precocemente esses estudantes e oferecer atendimento adequado, com serviços e recursos especializados”, informou o MEC em nota.

Desafio em dose dupla

Gabriel e Marina, irmãos de 13 e 9 anos, respectivamente, são algumas dessas crianças, que desde muito novos já demonstravam habilidades que não eram comuns em crianças daquela idade. Para os pais, a novidade espantou de início. “Eles sempre foram muito precoces e também muito curiosos. Com menos de dois anos o Gabriel já conversava com um português quase que perfeito, enquanto a Marina também tinha um vocabulário incrível para a idade”, conta a mãe dos pequenos, a pedagoga e orientadora educacional, Camila Herculian.

A curiosidade por assuntos que não eram comuns entre crianças dessa idade também despertou estranheza em Camila. “Em uma ocasião, o Gabriel começou a questionar sobre aeronavegabilidade e aerodinâmica dos aviões, e meu marido teve que ir atrás para explicar a ele com todos os detalhes possíveis, já que ele não se contentava com explicações rasas, como a maioria das crianças”, relembra ela.

Quando o Gabriel tinha três anos de idade, ela e o marido procuraram a primeira avaliação, na qual foi constatado que o pequeno demonstrava uma maturidade e um pensamento em um nível notavelmente mais avançado do que o das crianças da mesma faixa etária. Neste mesmo período, Gabriel também começou a apresentar os primeiros sintomas de tédio no ambiente escolar.

“Ele começou a apresentar muito sofrimento na escola, pois tudo para ele era tedioso, repetitivo e monótono. Enquanto os outros coleguinhas aprendiam assuntos menos desafiadores, o Gabriel já estava lendo ‘A Arte da Guerra’ e buscando mais sobre questões do corpo humano e sexualidade. A partir daí procuramos alguns especialistas que nos ajudaram a entender o que estava acontecendo e também nos auxiliaram sobre o que deveria ser feito”, explica Camila, que após o diagnóstico optou pela aceleração de série. “Foi uma decisão muito difícil, bem desafiadora, mas necessária”.

No caso da Marina, o diagnóstico é mais recente, realizado este ano, e apesar de ter o mesmo parecer médico que o irmão, apresenta traços e características completamente diferentes. “Muitos acreditam que crianças com altas habilidades são iguais e isso não é verdade. Cada uma tem suas particularidades e anseios próprios. Enquanto a Marina tem mais facilidades com uns assuntos, o Gabriel já tem mais proximidade com outros, e isso é super normal”, explica a mãe.

Os irmãos, no entanto, têm semelhanças também! “Tanto a Marina quanto o Gabriel têm um senso de justiça muito forte e são muito parceiros. Eles não admitem desrespeito e sempre buscam estarem próximos um do outro, como uma forma de se protegerem mesmo”, destaca Camila.

A mãe ainda evidencia que o preparo das instituições de ensino é um dos maiores problemas atualmente para pais de crianças superdotadas. “As escolas não estão preparadas para lidar com isso. Há ainda muitos mitos que precisam ser desconstruídos também. Além disso, elas não trabalham bem a questão do bullying, então não é incomum casos de não aceitação por parte dos colegas e episódios de bullying que terminam afetando a vida e o desempenho escolar dessas crianças”, afirma.

Para tentar mudar um pouco esse cenário, Camila se especializou no tema e ajuda outras mães e pais que também passam pelas mesmas situações. “Hoje, depois de tudo pelo que passamos, de todas as dores, traumas, nosso maior propósito é buscar ajudar outras pessoas, principalmente aquelas que muitas vezes não fazem nem ideia com o que estão lidando”, acrescenta.

Duas medalhas e contando…



Morador de Tremembé, no interior de São Paulo, Leonardo Zielinski, hoje com seis anos, também aprendeu desde cedo o que é ser diferente em uma sociedade repleta de tabus. Com quatro anos, ele já era alfabetizado, sabia inglês e francês e possuía um Quociente de Inteligência (QI) de 148 pontos — para se ter uma ideia, a média de QI do brasileiro é de 83 pontos.

Aos cinco anos de idade, o pequeno foi campeão da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), evento nacional que tem como objetivo estimular o interesse dos estudantes pela Astronomia e pela ciência em geral. O feito foi repetido um ano depois, com Leonardo sagrando-se bicampeão da competição apenas aos seis anos de idade.

Ele, hoje, está no 3° ano do ensino fundamental, que normalmente é para crianças de oito anos. A mãe do estudante, Cristina Zielinski, conta que percebeu que o filho tinha certas características diferentes às de outras crianças quando ele era muito novo. "Com poucos meses o Leo já falava, com três anos e meio já sabia ler e possuía um vocabulário extenso e que não era comum para aquela faixa etária”, relembra ela.

A descoberta da superdotação aconteceu aos quatro anos de idade. A mãe explica que ele começou a apresentar frustrações no ambiente escolar e precisou procurar por novas opções de escola, ao mesmo tempo em que ela buscava por especialistas que pudessem ajudar a entender o que poderia estar acontecendo. “Naquele momento, nós não fazíamos ideia do que era a superdotação. Então, quando veio o diagnóstico foi uma surpresa. Por isso, foi preciso buscar conhecimento para entender um pouco mais sobre as demandas do Léo”, conta.

Após o diagnóstico por parte de um especialista, Cristina conta que ainda enfrentou dificuldade para fazer valer o direito do filho de ter um plano de educação que o atendesse plenamente. “No início, a escola se recusou a acelerar ele de série. Além disso, nós tivemos que pagar, com dinheiro do nosso próprio bolso, por um programa de orientação, que seria fornecido aos professores dele, já que a escola disse que não sabia como montar um Plano Educacional Individualizado”, afirma.

O Plano a que ela se refere é também conhecido como PEI, considerado uma proposta de organização curricular desenvolvida especialmente para cada educando, com o objetivo de nortear a mediação pedagógica do professor e de desenvolver os potenciais ainda não consolidados do aluno. É importante ressaltar que, conforme determina a lei, o documento é um direito do aluno e responsabilidade da instituição de ensino, não dos seus responsáveis.

“A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) trata sobre a educação especial. O texto estabelece os direitos em todos os níveis da educação, ou seja, ensino fundamental, médio e superior. O documento ainda fala que os municípios, estados, União e as instituições, inclusive as privadas, devem prover currículos e recursos educativos adaptados para cidadãos com deficiência e também com altas habilidades. Além disso, alunos com superdotação têm direito a professores com especialização adequada e sala de recursos multifuncionais”, explica o Mestre em Direito, Denner Pereira da Silva.

Atualmente, o Leo é membro da Mensa Brasil, entidade que reúne pessoas e profissionais de altas capacidades intelectuais no país e, apesar da idade, já tem muito bem definido qual profissão quer seguir quando crescer. “Quero ser piloto, astronauta e engenheiro. Porque gosto de construir muitas coisas", planeja ele.

Cumplicidade e amor 

Da terra do Cacau e Gabriela, Pedro Antônio, de oito anos, e Maria Rita, de sete, formam mais uma dupla pra lá de especial. Naturais de Ilhéus, no sul da Bahia, os pequenos começaram a demonstrar características de superdotação desde muito cedo. “Os dois foram criados em um ambiente com poucas telas e muitos livros e, no início, demoramos a perceber que eles tinham altas habilidades”, conta a mãe das crianças, Mayanna Ribeiro.

Mayanna relembra que passou a desconfiar da condição do Pedro somente após um alerta de uma profissional de saúde que acompanhava o garoto quando mais novo. “Ele sempre teve uma maturidade muito acentuada e também demonstrava preocupação com questões que não eram comuns de estarem no radar de crianças daquela idade. Foi então que a homeopata que visitávamos com regularidade sugeriu que fizéssemos uma avaliação dele”, disse.

Já Maria Rita teve o diagnóstico mais recentemente. Segundo Mayanna, a jovem tem uma característica de tentar camuflar as altas habilidades com receio de não ser aceita pelas outras crianças. “As meninas possuem alguns traços e desafios diferentes. Elas, por exemplo, tentam esconder as suas habilidades quando percebem que demonstrar tanto esse conhecimento pode ser um fator que as excluam do meio social. De modo geral, ao adotarem essa perspectiva, elas acreditam estar promovendo uma ideia de igualdade que, na realidade, não existe. Como resultado, essa abordagem pode causar um sofrimento à elas.”, explica.

Entre os dois, Mayanna jura que a amorosidade e a cumplicidade estão sempre presentes. “A Maria é uma menina que valoriza muito a família, os pais, o lar, e também é muito amorosa, dentro e fora de casa, com os familiares e professores”, conta ela, que destaca os gostos da filha. “Ler, estudar inglês e praticar ballet são as principais paixões dela”, acrescenta.

Já o Pedro levanta preocupações que podem estar além do entendimento de muitas pessoas. “Ele é muito preocupado com justiça social e também com a qualidade de educação. Assim como a irmã, também é muito amoroso e está sempre buscando cuidar dela”, enaltece a mãe, que também admite que os livros, idiomas, física e matemática estão entre as paixões do filho.

Para o futuro, os sonhos são muitos. Enquanto o Pedro deseja se aprofundar na área da física, a Maria tem o sonho de ser modelo e também policial federal. Mayanna ressalta, no entanto, que busca deixar eles aproveitarem a infância, sem se preocupar muito com as obrigações do amanhã. “Muitas pessoas têm a ideia errada de que crianças com altas habilidades não aproveitam a infância. É verdade que muitas coisas são diferentes na vida e rotina deles, mas eles brincam, gostam de andar de bicicleta, de jogar bola, de correr, de irem à praia como qualquer outra criança que apenas quer ser feliz”, finaliza.

O que é a superdotação?

Quando se fala em superdotação – também chamada de altas habilidades, muitas pessoas não sabem nem o que, de fato, essa condição significa. Os mitos e a desinformação contribuem, principalmente, para a incompreensão, que pesa — e muito — na vida de pais, responsáveis e crianças que precisam lidar, diariamente, com a falta de apoio.

Mas, afinal, o que é a superdotação? Segundo a psicóloga e presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD), Cristina Delou, crianças superdotadas têm como características habilidades superiores e a superdotação é “uma característica humana que é evidenciada desde o início da vida e pode ser observada tanto pelos pais, ao notarem que a criança anda ou fala mais cedo, por exemplo, quanto pela escola”, explica a especialista.

Não existe uma receita que ajude a identificar pessoas superdotadas, mas segundo o neuropsicólogo e mestre em avaliação psicológica, Damião Silva, algumas características de quem tem superdotação incluem intensidade, senso de justiça aguçado, autocobrança, perfeccionismo e baixa tolerância à frustração.

Cristina também ressalta que a superdotação não necessariamente está voltada a uma área específica apenas, mas sim para o funcionamento da pessoa. Há características que são comuns, mas não há um padrão de perfil para superdotados. Outro mito que, de acordo com a profissional, precisa ser derrubado é o de que crianças com altas habilidades sofrem de transtornos ou doenças mentais.

“Não há código internacional de doença atribuído a superdotação, de nenhum tipo. Além disso, não há menção à superdotação no tratado internacional de doença mental em relação à transtorno. É importante deixar claro que não se trata de um quadro patológico. É o desenvolvimento natural dos seres humanos. Assim como a inteligência pode ser comprometida no sentido da deficiência intelectual, ela pode ser mais desenvolvida no caso da superdotação”, esclarece.

Cristina enfatiza ainda a importância de desmitificar um equívoco comum, onde algumas pessoas erroneamente acreditam que os indivíduos superdotados possuem traços de loucura. De acordo com a psicóloga, esse equívoco se deve, em parte, ao fato de que um pequeno grupo de indivíduos excepcionalmente inteligentes foi historicamente retratado como excêntrico.

“Pessoas superdotadas podem possuir outros transtornos, mas isso não é uma regra. Então, é possível encontrar superdotados que tenham dislexia, TDAH ou algum outro transtorno mental, assim como também é possível haver pessoas que não são superdotadas e que tenham essas mesmas condições”, explica.

Acompanhamento é fundamental 

Cuidar de uma criança superdotada exige paciência, pois os desafios vão além do intelecto e envolvem também dificuldades emocionais devido à sensibilidade e intensidade que são mais aguçadas em quem tem superdotação. Por isso, o acompanhamento médico e pedagógico é de fundamental importância para um desenvolvimento saudável e seguro.

Para Damião, o primeiro passo para isso é o diagnóstico correto e precoce. “Hoje em dia, ainda há um mito de que pessoas superdotadas são autossuficientes. Mas se você não identifica e não atende de maneira correta essas crianças e adolescentes, você pode fazer com que elas tenham um lado emocional e de socialização mais fragilizado. E, somado a isso, pode vir também o sofrimento no ambiente escolar, uma vez que a criança, muitas vezes, se vê em um ritmo significativamente diferente do seu”, constata o especialista.

Damião ainda ressalta que, por este motivo, é indispensável que os pais e os educadores estejam sempre atentos ao comportamento dos filhos e educandos. “Com o diagnóstico correto já é bem difícil fazer com que as expectativas desses indivíduos sejam atendidas, mas sem uma avaliação é praticamente impossível e, se negligenciado, pode-se desencadear alguns transtornos mentais e de humor mais adiante, como depressão e ansiedade, por exemplo”, complementa o neuropsicólogo.

A educação para superdotados 

O conceito de altas habilidades/superdotação foi incorporado à Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que regula o sistema educacional do Brasil, somente em 2013. Naquele ano, a lei número 12.796 foi promulgada, introduzindo modificações na LDB e estabelecendo a obrigatoriedade do "atendimento educacional especializado gratuito aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, abrangendo todos os níveis, fases e modalidades de ensino, de preferência no âmbito da rede regular de ensino".

Dois anos mais tarde, em 2015, a lei 13.234 foi promulgada com o propósito de tornar obrigatória a identificação, registro e suporte a estudantes com tais características. No entanto, as famílias de crianças e adolescentes dotados de habilidades excepcionais expressam sua insatisfação, corriqueiramente, devido à falta de cumprimento regional da lei, alegando que ela é excessivamente abrangente. Além disso, é importante notar que essa regulamentação é válida apenas para instituições de ensino públicas.

Para Denner, as principais barreiras para uma efetiva inclusão no ambiente educacional estão relacionadas à falta de qualificação das instituições de ensino e dos profissionais que ali estão. O especialista atribui, ainda, essa inaptidão, em parte, à desinformação.

“É essencial que haja investimento na qualificação dos professores e políticas públicas efetivas que ajudem a disseminar, tecnicamente, o que é a superdotação, quais são as barreiras que esses estudantes enfrentam e o que pode ser feito para melhorar a vida deles. Com um pouco mais de conscientização e menos mitos e achismo, teríamos um cenário melhor para todos estes indivíduos”, opina.

O advogado, que também é especialista em Direito Civil e Processual Civil, também observa que as famílias têm à sua disposição, caso seja necessário, os órgãos de fiscalização e até mesmo a justiça. No entanto, ele sugere que o primeiro caminho deve ser o diálogo.

“Uma vez que os pais saibam dos seus direitos, eles devem solicitar o que achar conveniente à escola, de preferência por escrito. A escola também possui o direito de negar uma aceleração de série ou indeferir um pedido de adaptação curricular, por exemplo. No entanto, ela precisa justificar, de maneira técnica, o porquê está discordando da solicitação”, explica.

Se com a decisão a família acreditar que está tendo o seu direito violado, ele diz que os órgãos de fiscalização do município podem ser acionados para que o caso seja analisado. “Nesse caso, as secretarias de Educação e até mesmo o Ministério da Educação (MEC) podem e devem prestar o apoio necessário, e decidir se uma adaptação é pertinente ou não”, acrescenta.

Caso essa negativa se mantenha, só resta a judicialização do caso. Com isso, a justiça irá decidir quem está certo e quem está errado. “Em grande parte das vezes, a necessidade é comprovada através de perícias, além de documentos emitidos pelos profissionais de saúde que atenderam essa criança ou adolescente. Por este motivo, é muito importante que exista um acompanhamento médico de qualidade”, finaliza.


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